O Brasil é o maior produtor de mamão (Carica papaya L.), respondendo por cerca de 40% da produção mundial.
O mamão é uma fruta com alto teor nutritivo, sendo que ocupa o 1º lugar quando se fala em frutas de regiões tropicais, subtropicais e temperadas. Pesquisas mostram que cerca de meio mamão (200 g) contém cerca de 61% de vitamina A. Ademais, o mamoeiro é uma fruta que produz o ano inteiro, desde que irrigada.i
As principais cultivares no Brasil são: “Sunrise Solo”, “Improved Sunrise Solo cv. 72/12, “Golden” e “Tainung #1”. Os frutos da três primeiras são piriformes e são chamados de mamão “papaya” ou “havaí”. Já no último os frutos são alongados e chamado mamão “formosa”.
No Brasil, o principal vilão das culturas de mamão é vírus da mancha anelar ou mosaico. Esta doença é o principal entrave fitossanitário desta cultura, sendo causada pelo vírus da macha anelar do mamoeiro ou papaya ringspot vírus (PRSV) (Souza Júnior, 2008). O vírus da mancha anelar é transmitido por diversas espécies de insetos afídeos (pulgões), de uma forma não persistente, o que torna o controle muito difícil.
Doença da Mancha Anelar no Mamão
Os principais sintomas dessa doença são clorose e mosaico nas folhas jovens, as quais perdem grande área foliar à medida que maturam, causando queda na taxa de crescimento e produtividade. As plantas contaminadas apresentam estrias oleosas na parte superior do caule e manchas anelares nos frutos. Essas manchas diminuem expressivamente a aceitação do mamão no mercado.
A falta de controle desse vírus pode levar a contaminação de 100% das plantas em um período de 4 a 7 meses. As principais estratégias de controle são: programas fitossanitários baseado na eliminação das plantas sintomáticas; uso de plantas tolerantes desenvolvidas em programas de melhoramento genético; uso de proteção cruzada, onde uma estirpe atenuada do vírus é utilizada como “vacina”. Entretanto, nenhuma dessas formas de controle é garantia de eficácia plena.
Surgimento do Mamão Transgênico
A primeira planta de mamão resistente ao vírus da mancha anelar surgiu no início da década de 90. O desenvolvimento deste transgênico foi obtida através de uma parceria entre a Universidade de Cornell, a Universidade do Havaí e a empresa UpJohn nos Estados Unidos da América.
A diferença entre o mamão transgênico produzido no Havaí e o da Embrapa é que o primeiro só é resistente ao vírus encontrado no Havaí. Não é resistente ao mesmo vírus encontrado no Brasil. O mamão produzido em Brasília aparentemente é resistente ao vírus da mancha anelar encontrado em todo o país.
A planta resultante deste trabalho foi a denominada linha 55-1, a qual expressava o gene da capa protéica (cp) de um isolado havaino de PRSV e manifestou-se resistente a este e outros isolados havaianos. No entanto, quando testada em outras regiões como o Brasil, mostrou-se susceptível.
A partir desses experimentos e testes, a Empraba, por meio do Centro de Mandioca e Fruticultura na Bahia, firmou uma parceria com a Universidade de Cornell para desenvolver mamoeiro transgênico resistente aos isolados do Brasil de PRSV.
Para tanto, foi coletado um isolado de PRSV no extremo sul da Bahia, principal região produtora de mamão, o qual foi doador do gene de capa protéica utilizado em novos trabalhos de transformação de mamoeiro. O desenvolvimento desta linhagem foi feita pelo Engenheiro Agrônomo da Embrapa Manoel Teixeira Souza Júnior.
A estratégia utilizada foi transformar os mamoeiros com um gene do próprio vírus. Os cientistas se aproveitaram de um mecanismo conhecido como silenciamento de genes. Diferentes organismos apresentam formas diversas de silenciamento. No caso do mamão, a história é semelhante à idéia do feitiço que virou contra o feiticeiro. Parece haver um limite máximo que a planta pode agüentar de "produção" de cada gene. Se acontecer em excesso, a planta passa a destruir o produto intermediário desse gene, o RNA. Com a transferência para o mamão de um gene do vírus, a planta passa a produzir o RNA correspondente. Ao infectar a planta, o vírus insere seu material genético para que também seja produzido. Com isso, passa a existir uma sobrecarga na produção daquele gene, agora presente na planta em dose dupla. A planta não agüenta e "desliga" a produção, degradando o RNA. O próprio gene do vírus contribui para sua destruição.
O mamão transgênico tem o mesmo gosto e a mesma aparência do convencional. A única diferença entre eles é que o transgênico tem dois genes a mais, sendo que um deles o torna resistente ao vírus da mancha anelar. Esse gene foi retirado do próprio vírus e incorporado ao genoma (o conjunto de genes) do mamão. O outro gene introduzido é um "marcador", que permite aos pesquisadores distinguir as plantas transgênicas das que não são geneticamente modificadas.
A discussão quanto aos possíveis riscos associados ao uso de organismos geneticamente modificados (OGMs) tem sido fervorosa nestes últimos anos. Segundo Manoel Teixeira, um ponto relevante que surge desta discussão é que a análise de segurança alimentar e ambienta na liberação de um OGM deve ser analisada caso a caso e não generalizada como é feita por alguns. Isso, pois a criação de um OGM deve ser feita caso a caso, tendo em vista que um determinado OGM é resultada único de interação entre a espécie modificada e o (s) (trans) gene (s) utilizado (s) para produzir aquele evento de transformação.
Nesse sentido, Manoel Teixeira relata que no caso do mamoeiro transgênico resistente ao (s) isolado (s) Brasileiro (s) de PRSV, os genes usados foram o gene cp do próprio vírus causador da mancha anelar e o gene marcador npt II, devendo ser considerado o risco da interação C. papaya X cp X npt II.
No caso do mamão transgênicos, os riscos levantados são:
a)ocorrência de heteroencapsidação;
b)ocorrência de fluxo gênico.
Em que pesem tais riscos, no Brasil não existem estudos que comprovem que o vírus causador do amarelo letal sejam passíveis de encapsidação pela proteína capsídica do PRSV.
Em relação ao fluxo gênico ou transferência vertical do (trans) gene para espécies do mesmo gênero da mesma família, é preciso considerar o seguinte: a) possibilidade da transferência ocorrer; b) conseqüência dessa transferência. A produção de híbridos interespecíficos naturais dentro do gênero Carica, tendo C. papaya como um dos progenitores é raro.
Vantagem e desvantagem do Mamão Transgênico
Por outro lado, considerando o aspecto de segurança ambiental e alimentar, os principais perigos no que se refere às plantas transgênicas expressando genes de resistência a antibióticos são: a) que o gene seja tóxico; b) que o produto do gene seja tóxico ou cause alergia; c) que o seja transgerido para microorganismos no aparelho digestivo dos animais ou no ambiente; d) que o gene ou seu produto cause danos ao meio ambiente.
Os pesquisadores relatam que uma vantagem do mamão em relação a outros alimentos transgênicos é que ele não tem o risco de causar alergia nem toxidez-que podem ser provocadas por proteínas produzidas pelo gene introduzido no alimento. No caso do mamão, o gene introduzido não produz proteína. O mamão transgênico tem o mesmo gosto e a mesma aparência do convencional.
No tocante ao item C, o gene "marcador" torna o mamão resistente ao antibiótico canamicina. Segundo Souza, existem estudos que mostram que esse gene de resistência a esse antibiótico não traz problema nenhum para o homem. O corpo humano já contém, no trato intestinal, muitas bactérias resistentes à canamicina.
Objetivo da transgenia no mamão
Dito isso, temos que o objetivo principal de todas as pesquisas, experimentos e melhoramento genético feitos pela Embrapa é produzir plantas de mamoeiro transgênicos resistentes aos isolados Brasileiros de PRSV.
Ademais, a engenharia genética tem se mostrado realmente a única ferramenta capaz de produzir plantas resistentes a esse patógeno, o que, além de melhorar a produção e a produtividade, diminui o custo de produção. "A tendência é que um número cada vez maior de características possa ser manipulada pela engenharia genética, aumentando a gama de produtos à disposição do consumidor", diz Ana Cristina Miranda Brasileiro, do Laboratório de Transferência de Genes da Embrapa.
Comparação: Mamão com a doença da mancha anelar e um mamão transgênico
